đProfessores que estĂŁo combatendo a violĂȘncia nas escolas pĂșblicas
Professores que estĂŁo combatendo a violĂȘncia nas escolas pĂșblicas
Desrespeito na sala de aula, xingamentos, agressĂ”es fĂsicas… A educação estĂĄ sendo derrotada? Ainda nĂŁo! Conheça professores que estĂŁo fazendo a diferença.
Tinha tudo para ser mais um dia difĂcil na conturbada rotina da Escola Municipal de Ensino Fundamental Professora Pequenina Calixto, em Paraty, no litoral do Rio de Janeiro. E foi. A professora de artes Carlota GalvĂŁo,
46 anos, orientava uma turma do 6Âș ano quando percebeu que um dos
garotos filmava as meninas com o celular. Carlota pediu o aparelho, mas o
jovem nĂŁo entregou. “Se vocĂȘ me der o telefone agora, eu o devolvo ao
final da aula. Do contrĂĄrio, vou recolher e sĂł entrego a algum
responsĂĄvel por vocĂȘ”, disse com firmeza.
O impasse estava criado. Na negativa do aluno ao pedido, ela teria de
tomar uma atitude mais dura contra um menino que, apesar de ter apenas
13 anos, atuava para a quadrilha que controla o trĂĄfico de drogas na
região. Os colegas em volta passaram a ameaçar Carlota.
“Somos irmĂŁos dos que cortaram a cabeça e vamos te pegar lĂĄ fora”,
disseram. Faziam referĂȘncia a um crime ocorrido na semana anterior, numa
favela prĂłxima. William de Azevedo,
30 anos, fora decapitado porque teria beijado a namorada do chefe de
uma quadrilha. A cabeça acabou exibida como troféu pelas ruas e usada
como bola de futebol.
Carlota argumentou que aquilo seria
tolice. Estava ali para ajudĂĄ-los a construir uma vida melhor e esperava
que eles aproveitassem a chance. Um dos meninos começou a defendĂȘ-la e,
finalmente, o que iniciara o conflito entregou o celular.
No embate, a educadora se manteve calma. Mas, assim que o sinal tocou,
ela desabou na sala dos professores. “Eu nĂŁo tenho estrutura para
isso’’, desabafou aos prantos a professora que tem 18 anos dedicados ao
magistĂ©rio. “Vivemos com medo, sob ameaça o tempo todo.”
O episódio aconteceu em março de 2019, na maior escola municipal de
Paraty. Mas poderia ter sido em qualquer outra cidade. Diariamente,
milhares de educadores passam por situaçÔes semelhantes. E muitas
terminam de forma trĂĄgica, com sangue, como aconteceu com MĂĄrcia Friggi, na catarinense Indaial, no dia 21 de agosto de 2018.
ApĂłs retirar da sala um estudante de 15 anos que a havia desrespeitado,
foi atacada a socos e pontapés e jogada contra a parede. Publicada no
Facebook, a foto do rosto ferido da educadora despertou o Brasil para
uma realidade estarrecedora.
A Prova Brasil, aplicada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais AnĂsio Teixeira (Inep),
mostra que, em 2015, o quadro era sombrio: 4 714 professores declararam
ter sofrido algum tipo de atentado à vida, 22 692 foram ameaçados por
estudantes e 132 244 (ou 51% dos entrevistados) presenciaram agressÔes
fĂsicas ou verbais entre alunos.
A invasĂŁo do ambiente escolar pela violĂȘncia se revela tambĂ©m nos
relatos de docentes que viram, em suas turmas, jovens embriagados (13
015 relatos), sob efeito de drogas ilĂcitas (29 737) e armados (12 078
com armas brancas e 2 365 portando armas de fogo).
Em setembro de 2018, o jornal Folha de S.Paulo publicou um
levantamento baseado em 178 boletins de ocorrĂȘncia registrados por
educadores no primeiro semestre deste ano. Ele mostrou que o estado de
São Paulo tem uma média diåria de dois professores agredidos em sala de
aula. Em ao menos um em cada quatro casos, o aluno Ă© apontado como o
agressor.
Mais do que um nĂșmero do Inep, a situação da mestra de Paraty Ă© o
retrato da vida real. E os problemas na Pequenina Calixto refletem uma
cidade que, apesar de ter sĂł 40 mil habitantes, estĂĄ entre as 50 mais
violentas do Brasil, com Ăndice de homicĂdios de 60,9 para cada 100 mil
habitantes, conforme dados do Mapa da ViolĂȘncia de 2016.
Se nĂŁo bastasse estar instalada numa zona conflagrada pelo crime, essa
escola viu, no inĂcio do ano, o quadro de pessoal reduzir-se em 50%,
pois a prefeitura demitiu os servidores nĂŁo concursados. Alunos sem
aulas por falta de professores vagavam pelos pĂĄtios sem inspetores.
Tornaram-se comuns as agressÔes entre estudantes, o recrutamento forçado
de jovens pelo tråfico e as ameaças a docentes e funcionårios. Carlota
procurou ajuda.
Pedagogia da emergĂȘncia
Convidada por uma colega, ela se uniu a um grupo de educadores formado pela Escola ComunitĂĄria Cirandas,
projeto sem fins lucrativos que se dedica à melhoria da educação em
Paraty. LĂĄ, ela foi apresentada Ă pedagogia da emergĂȘncia, abordagem
baseada na antroposofia e na pedagogia Waldorf que
trabalha com o resgate emocional de jovens expostos a situaçÔes de
risco. “No inĂcio, eu ouvia o que os formadores ensinavam e achava tudo
muito fofo”, brinca.
"NĂŁo acreditava que aquilo pudesse
funcionar na minha turma.” AtĂ© que ela decidiu pĂŽr em prĂĄtica o que
estava aprendendo. Carlota via potencial em um menino de 15 anos que
cursa o 6Âș ano. O jovem, porĂ©m, tumultuava o ambiente e se valia do fato
de pertencer Ă s gangues para escapar de puniçÔes. “Os formadores me
orientaram a transformĂĄ-lo em lĂder”, explica. “Ele precisava chamar a
atenção. Assim que conseguiu, tudo mudou. Participava das aulas e parou
com as ameaças."
No dia 22 de agosto de 2018, o trabalho iniciado pela professora foi
afetado por uma mudança radical na rotina. Com problemas estruturais no
telhado, a Pequenina Calixto foi interditada pela Defesa Civil.
RedistribuĂdos entre outras quatro escolas do municĂpio, muitos
estudantes deixaram as aulas. “Um menino envolvido com uma gangue nĂŁo
pode aparecer em regiĂŁo dominada por grupos rivais.
A evasĂŁo cresceu muito.” Ela leciona agora em trĂȘs endereços. As turmas,
que eram de 30 estudantes, minguaram para oito ou dez. Ou seja, quando a
escola voltar a funcionar, a professora terå que recomeçar o esforço.
A abordagem tem na prevenção uma das
medidas de contenção. Segundo a pedagoga Telma Vinha, doutora em
psicologia, desenvolvimento humano e educação pela Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp),
a situação se agrava quando se tenta impor algo que o aluno considera
arbitrĂĄrio. “A agressĂŁo ocorre quando o jovem Ă© mandado para fora da
sala. Ă possĂvel evitar que a situação chegue a esse ponto.” Telma lista
quatro passos importantes para a prevenção:
• Mudança no planejamento para a aula fazer
sentido para o jovem. “O comportamento de ruptura acontece quando hĂĄ
desinteresse”, explica. “Se a aula leva em conta a realidade dele e Ă©
interessante, o aluno participa e causa menos problemas.”
• Criação de alternativas positivas Ă violĂȘncia – a
Ășnica forma de se manifestar que ele conhece. O protagonismo e a
liderança, aprendidos em peças de teatro ou em debates, ensinam a
substituir a agressividade por outras formas de expressĂŁo.
• Desenvolvimento de habilidades sociais e emocionais para ensinar a ser justo,
a respeitar e a ser respeitado. “O jovem precisa saber identificar, regular e expressar suas emoçÔes de forma a nĂŁo magoar os outros”, diz Telma. “Ă legĂtimo sentir raiva, o que nĂŁo pode Ă© tocar o outro.”
a respeitar e a ser respeitado. “O jovem precisa saber identificar, regular e expressar suas emoçÔes de forma a nĂŁo magoar os outros”, diz Telma. “Ă legĂtimo sentir raiva, o que nĂŁo pode Ă© tocar o outro.”
• Discutir com o grupo questĂ”es de convivĂȘncia e elaborar regras diante de cada dificuldade. “Em
assembleias quinzenais, por exemplo, pode-se discutir crises, combinar
regras e avaliar como elas estĂŁo funcionando”, sugere.
Essas tĂ©cnicas preventivas fazem parte da rotina de Joaquim AraĂșjo,
40 anos, que hĂĄ 20 dĂĄ aulas de artes em Fortaleza. ResponsĂĄvel por uma
turma de ensino médio na Escola Estadual de ensino Fundamental e Médio
Jocie Caminha de Menezes, Joaquim usa a mediação diariamente. “O
conflito, em si, nĂŁo Ă© ruim, porque nos ensina a lidar com a
adversidade”, explica Joaquim.
“NĂłs precisamos saber trabalhar isso para evitar que o caso termine em
agressĂ”es.” Sempre que um problema surge, o professor para a aula e
estabelece um fĂłrum. Sentados em roda – formato que ele adota como
padrĂŁo nas aulas –, começam o debate. Quem assistiu Ă briga narra o que
viu. “Enquanto esfriam os Ăąnimos, as partes envolvidas, sejam dois
jovens ou o estudante e o professor, veem como os outros perceberam a
atuação deles”, conta Joaquim.
Em seguida, os que nĂŁo agiram bem tĂȘm a oportunidade de explicar seus
pontos de vista. “Eles notam os exageros que cometeram ao ouvir os
demais.” Segue, entĂŁo, o momento das reparaçÔes, em que as partes se
desculpam, sem que ninguém seja exposto a humilhação. E estabelecem-se
acordos para evitar a repetição do problema.
Graças a esse modelo, Joaquim não precisa
lidar mais com ataques. “NĂŁo Ă© um mar de rosas. Ăs vezes os meninos
chegam de cabeça quente porque a situação do entorno Ă© difĂcil”, diz. A
Jocie fica na regiĂŁo do bairro Bom Jardim, o mais truculento de
Fortaleza – a capital mais violenta do Brasil, segundo o Atlas da
ViolĂȘncia divulgado este ano pelo Instituto de Pesquisas EconĂŽmicas Aplicadas (Ipea), com taxa de 78,1 homicĂdios para cada 100 mil habitantes. “NĂŁo podemos fechar os olhos para essa realidade.
Os jovens precisam sentir que nos
preocupamos com eles e queremos ajudĂĄ-los”, afirma. AlĂ©m da mediação,
Joaquim planeja as aulas em conjunto com a turma para integrar a vida
deles ao currĂculo. Para isso, recorre Ă s tĂ©cnicas do Teatro do Oprimido, desenvolvido pelo teatrĂłlogo Augusto Boal (morto em 2009).
EpisĂłdios do cotidiano da comunidade sĂŁo interpretados. “Eles sentem as
diferentes emoçÔes envolvidas em um fato, aprendem a analisar pontos de
vista diversos, enriquecem a capacidade de sentir e de olhar para o
outro.”
A experiĂȘncia de Joaquim começou a ganhar
adeptos. Outros docentes passaram a adotar a pråtica da mediação com
apoio da direção da escola. Para quebrar o paradigma da linguagem
violenta, as salas de aulas foram batizadas com palavras que expressam
gentileza. “Temos a sala do amor, a da afetividade”, conta. “Ă um
processo lento, muitos colegas ainda resistem, mas os gestores estĂŁo
abertos Ă mudança.”
NĂŁo Ă© caso de polĂcia
Telma Vinha discorda das abordagens que tentam transferir a
responsabilidade para a esfera da Segurança PĂșblica. Solucionar a
questĂŁo, Telma insiste, Ă© papel da escola. “NĂŁo adianta instalar
cĂąmeras, detectores de metal, aumentar o policiamento”, afirma.
“Enquanto a escola nĂŁo mudar institucionalmente, nĂŁo vai funcionar bem.”
Para a especialista, as transformaçÔes na sociedade tornaram as
relaçÔes mais horizontais e diminuĂram o poder da autoridade.
A escola, porém, continua brigando por tudo: a hora de chegar, a hora de
ir ao banheiro, a cor da meia que estĂĄ diferente do uniforme. “Isso
desgasta a autoridade, e o aluno perde o respeito por tudo, inclusive
pelas regras que realmente importam”, defende Telma.
O docente, porém, não estå preparado, não recebe formação nem respaldo
para lidar com o conflito. “Ele fica preso a procedimentos antigos, como
mandar para a sala da coordenação, suspender, expulsar”, diz Telma.
"Sem preparo, o professor acaba adoecendo." Um levantamento da Secretaria Estadual de Educação de SĂŁo Paulo –
maior rede do paĂs, com 220 mil docentes – revelou que 136 mil
afastamentos em 2015 por questĂ”es de saĂșde foram concedidos – 27,8% das
licenças ocorreram por transtornos mentais, stress e depressão.
A vida Ă© comunitĂĄria
Na periferia de Belo Horizonte, a Escola Municipal de Ensino Fundamental Anne Frankenvolve seus 797 estudantes com a histĂłria e a rotina do Conjunto Confisco, onde estĂĄ instalada. “Aqui sempre foi o lugar das assembleias do bairro, dos velĂłrios, das missas”, conta a diretora Sandra Mara de Oliveira Vicente,
53 anos. “Fazemos questĂŁo de manter essa ligação porque ela Ă©
fundamental para o sucesso da escola.” Sandra, que chegou Ă Anne Frank
hĂĄ 26 anos, Ă© uma educadora ativa.
Circula
o tempo todo, prova a merenda, checa o estado dos equipamentos,
conversa com a equipe, ouve o que os estudantes tĂȘm a dizer. “Temos
conflitos, eles são parte da educação. O professor faz a mediação para
construir, com toda a turma, uma solução.” A unidade lida com crianças
em situação de risco. Algumas estão envolvidas com o crime, outras são
vĂtimas de abuso.
"Tentamos
acolher os alunos e suas famĂlias porque a escola precisa fazer
diferença na vida deles, ser o lugar onde aprendem e se sentem seguros."
Para fortalecer seu papel na comunidade, a Anne Frank participa de uma
rede de representantes do poder pĂșblico no bairro, que reĂșne o batalhĂŁo
da PolĂcia Militar, a Defensoria PĂșblica, o Centro de SaĂșde Municipal e o Centro Cultural. “Em reuniĂ”es mensais, propomos atividades culturais e soluçÔes para problemas do territĂłrio”, explica Sandra.
Em sala de aula, projetos integram a realidade dos jovens aos conteĂșdos acadĂȘmicos. Um deles, conduzido em 2016 por Moacir Fagundes Freitas, que leciona histĂłria, recebeu o PrĂȘmio Nacional de Educação em Direitos Humanos, concedido pelo MinistĂ©rio da Educação e pela Organização de Estados Ibero-Americanos. Intitulado Entre o DiĂĄrio e a HQ: Estudantes Construindo a HistĂłria de um Bairro,
o projeto levou o 7Âș ano a pesquisar as origens do Confisco e a
recontĂĄ-las no formato de histĂłria em quadrinhos. “Alguns jovens tinham
vergonha de morar aqui”, conta Freitas.
"Iniciamos o projeto com a leitura de O DiĂĄrio de Anne Frank,
porque a gente trabalha com o ideĂĄrio dela, que Ă© a luta contra a
violĂȘncia, o preconceito, a discriminação. O nosso bairro nĂŁo deixa de
ser uma espécie de gueto", explica.
Os alunos fizeram uma pesquisa de opiniĂŁo entre moradores para saber o
que eles pensavam sobre o lugar. Também identificaram dez mulheres que
haviam participado da fundação do bairro e as entrevistaram. “A
percepção deles foi se modificando”, relata o professor. “Quando
procurĂĄvamos notĂcias que os jornais publicam sobre o Confisco, eles jĂĄ
estavam se indignando com a forma como o bairro deles era retratado na
mĂdia.”
Na hora de construir a histĂłria em
quadrinhos, Freitas conseguiu o apoio de dois quadrinhistas, que deram
oficinas de desenho. Além do gibi, a turma fotografou o bairro. Das 700
imagens registradas, o professor escolheu 50 e montou a exposição
Confisco pelo Confisco. A mostra ganhou um edital da Universidade Federal de Minas Gerais e foi exibida ao pĂșblico no Circuito Cultural Praça da Liberdade, um dos pontos turĂsticos mais nobres de Belo Horizonte.
“NĂŁo vou esquecer a alegria dos
estudantes ao ver seus nomes no painel”, relata o mestre. Anne Frank
estĂĄ livre de agressĂ”es? “Claro que nĂŁo. Outro dia, um menino agrediu
uma colega de sala e eu tive de mediar o conflito”, recorda o professor.
“Educação Ă© um processo contĂnuo, nĂŁo acaba nunca. Os desafios vĂŁo e
voltam. Sabemos disso e aprendemos a dialogar sempre.”
đProfessores que estĂŁo combatendo a violĂȘncia nas escolas pĂșblicas
Professores que estĂŁo combatendo a violĂȘncia nas escolas pĂșblicas
Desrespeito na sala de aula, xingamentos, agressĂ”es fĂsicas… A educação estĂĄ sendo derrotada? Ainda nĂŁo! Conheça professores que estĂŁo fazendo a diferença.
Tinha tudo para ser mais um dia difĂcil na conturbada rotina da Escola Municipal de Ensino Fundamental Professora Pequenina Calixto, em Paraty, no litoral do Rio de Janeiro. E foi. A professora de artes Carlota GalvĂŁo,
46 anos, orientava uma turma do 6Âș ano quando percebeu que um dos
garotos filmava as meninas com o celular. Carlota pediu o aparelho, mas o
jovem nĂŁo entregou. “Se vocĂȘ me der o telefone agora, eu o devolvo ao
final da aula. Do contrĂĄrio, vou recolher e sĂł entrego a algum
responsĂĄvel por vocĂȘ”, disse com firmeza.
O impasse estava criado. Na negativa do aluno ao pedido, ela teria de
tomar uma atitude mais dura contra um menino que, apesar de ter apenas
13 anos, atuava para a quadrilha que controla o trĂĄfico de drogas na
região. Os colegas em volta passaram a ameaçar Carlota.
“Somos irmĂŁos dos que cortaram a cabeça e vamos te pegar lĂĄ fora”,
disseram. Faziam referĂȘncia a um crime ocorrido na semana anterior, numa
favela prĂłxima. William de Azevedo,
30 anos, fora decapitado porque teria beijado a namorada do chefe de
uma quadrilha. A cabeça acabou exibida como troféu pelas ruas e usada
como bola de futebol.
Carlota argumentou que aquilo seria
tolice. Estava ali para ajudĂĄ-los a construir uma vida melhor e esperava
que eles aproveitassem a chance. Um dos meninos começou a defendĂȘ-la e,
finalmente, o que iniciara o conflito entregou o celular.
No embate, a educadora se manteve calma. Mas, assim que o sinal tocou,
ela desabou na sala dos professores. “Eu nĂŁo tenho estrutura para
isso’’, desabafou aos prantos a professora que tem 18 anos dedicados ao
magistĂ©rio. “Vivemos com medo, sob ameaça o tempo todo.”
O episódio aconteceu em março de 2019, na maior escola municipal de
Paraty. Mas poderia ter sido em qualquer outra cidade. Diariamente,
milhares de educadores passam por situaçÔes semelhantes. E muitas
terminam de forma trĂĄgica, com sangue, como aconteceu com MĂĄrcia Friggi, na catarinense Indaial, no dia 21 de agosto de 2018.
ApĂłs retirar da sala um estudante de 15 anos que a havia desrespeitado,
foi atacada a socos e pontapés e jogada contra a parede. Publicada no
Facebook, a foto do rosto ferido da educadora despertou o Brasil para
uma realidade estarrecedora.
A Prova Brasil, aplicada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais AnĂsio Teixeira (Inep),
mostra que, em 2015, o quadro era sombrio: 4 714 professores declararam
ter sofrido algum tipo de atentado à vida, 22 692 foram ameaçados por
estudantes e 132 244 (ou 51% dos entrevistados) presenciaram agressÔes
fĂsicas ou verbais entre alunos.
A invasĂŁo do ambiente escolar pela violĂȘncia se revela tambĂ©m nos
relatos de docentes que viram, em suas turmas, jovens embriagados (13
015 relatos), sob efeito de drogas ilĂcitas (29 737) e armados (12 078
com armas brancas e 2 365 portando armas de fogo).
Em setembro de 2018, o jornal Folha de S.Paulo publicou um
levantamento baseado em 178 boletins de ocorrĂȘncia registrados por
educadores no primeiro semestre deste ano. Ele mostrou que o estado de
São Paulo tem uma média diåria de dois professores agredidos em sala de
aula. Em ao menos um em cada quatro casos, o aluno Ă© apontado como o
agressor.
Mais do que um nĂșmero do Inep, a situação da mestra de Paraty Ă© o
retrato da vida real. E os problemas na Pequenina Calixto refletem uma
cidade que, apesar de ter sĂł 40 mil habitantes, estĂĄ entre as 50 mais
violentas do Brasil, com Ăndice de homicĂdios de 60,9 para cada 100 mil
habitantes, conforme dados do Mapa da ViolĂȘncia de 2016.
Se nĂŁo bastasse estar instalada numa zona conflagrada pelo crime, essa
escola viu, no inĂcio do ano, o quadro de pessoal reduzir-se em 50%,
pois a prefeitura demitiu os servidores nĂŁo concursados. Alunos sem
aulas por falta de professores vagavam pelos pĂĄtios sem inspetores.
Tornaram-se comuns as agressÔes entre estudantes, o recrutamento forçado
de jovens pelo tråfico e as ameaças a docentes e funcionårios. Carlota
procurou ajuda.
Pedagogia da emergĂȘncia
Convidada por uma colega, ela se uniu a um grupo de educadores formado pela Escola ComunitĂĄria Cirandas,
projeto sem fins lucrativos que se dedica à melhoria da educação em
Paraty. LĂĄ, ela foi apresentada Ă pedagogia da emergĂȘncia, abordagem
baseada na antroposofia e na pedagogia Waldorf que
trabalha com o resgate emocional de jovens expostos a situaçÔes de
risco. “No inĂcio, eu ouvia o que os formadores ensinavam e achava tudo
muito fofo”, brinca.
"NĂŁo acreditava que aquilo pudesse
funcionar na minha turma.” AtĂ© que ela decidiu pĂŽr em prĂĄtica o que
estava aprendendo. Carlota via potencial em um menino de 15 anos que
cursa o 6Âș ano. O jovem, porĂ©m, tumultuava o ambiente e se valia do fato
de pertencer Ă s gangues para escapar de puniçÔes. “Os formadores me
orientaram a transformĂĄ-lo em lĂder”, explica. “Ele precisava chamar a
atenção. Assim que conseguiu, tudo mudou. Participava das aulas e parou
com as ameaças."
No dia 22 de agosto de 2018, o trabalho iniciado pela professora foi
afetado por uma mudança radical na rotina. Com problemas estruturais no
telhado, a Pequenina Calixto foi interditada pela Defesa Civil.
RedistribuĂdos entre outras quatro escolas do municĂpio, muitos
estudantes deixaram as aulas. “Um menino envolvido com uma gangue nĂŁo
pode aparecer em regiĂŁo dominada por grupos rivais.
A evasĂŁo cresceu muito.” Ela leciona agora em trĂȘs endereços. As turmas,
que eram de 30 estudantes, minguaram para oito ou dez. Ou seja, quando a
escola voltar a funcionar, a professora terå que recomeçar o esforço.
A abordagem tem na prevenção uma das
medidas de contenção. Segundo a pedagoga Telma Vinha, doutora em
psicologia, desenvolvimento humano e educação pela Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp),
a situação se agrava quando se tenta impor algo que o aluno considera
arbitrĂĄrio. “A agressĂŁo ocorre quando o jovem Ă© mandado para fora da
sala. Ă possĂvel evitar que a situação chegue a esse ponto.” Telma lista
quatro passos importantes para a prevenção:
• Mudança no planejamento para a aula fazer
sentido para o jovem. “O comportamento de ruptura acontece quando hĂĄ
desinteresse”, explica. “Se a aula leva em conta a realidade dele e Ă©
interessante, o aluno participa e causa menos problemas.”
• Criação de alternativas positivas Ă violĂȘncia – a
Ășnica forma de se manifestar que ele conhece. O protagonismo e a
liderança, aprendidos em peças de teatro ou em debates, ensinam a
substituir a agressividade por outras formas de expressĂŁo.
• Desenvolvimento de habilidades sociais e emocionais para ensinar a ser justo,
a respeitar e a ser respeitado. “O jovem precisa saber identificar, regular e expressar suas emoçÔes de forma a nĂŁo magoar os outros”, diz Telma. “Ă legĂtimo sentir raiva, o que nĂŁo pode Ă© tocar o outro.”
a respeitar e a ser respeitado. “O jovem precisa saber identificar, regular e expressar suas emoçÔes de forma a nĂŁo magoar os outros”, diz Telma. “Ă legĂtimo sentir raiva, o que nĂŁo pode Ă© tocar o outro.”
• Discutir com o grupo questĂ”es de convivĂȘncia e elaborar regras diante de cada dificuldade. “Em
assembleias quinzenais, por exemplo, pode-se discutir crises, combinar
regras e avaliar como elas estĂŁo funcionando”, sugere.
Essas tĂ©cnicas preventivas fazem parte da rotina de Joaquim AraĂșjo,
40 anos, que hĂĄ 20 dĂĄ aulas de artes em Fortaleza. ResponsĂĄvel por uma
turma de ensino médio na Escola Estadual de ensino Fundamental e Médio
Jocie Caminha de Menezes, Joaquim usa a mediação diariamente. “O
conflito, em si, nĂŁo Ă© ruim, porque nos ensina a lidar com a
adversidade”, explica Joaquim.
“NĂłs precisamos saber trabalhar isso para evitar que o caso termine em
agressĂ”es.” Sempre que um problema surge, o professor para a aula e
estabelece um fĂłrum. Sentados em roda – formato que ele adota como
padrĂŁo nas aulas –, começam o debate. Quem assistiu Ă briga narra o que
viu. “Enquanto esfriam os Ăąnimos, as partes envolvidas, sejam dois
jovens ou o estudante e o professor, veem como os outros perceberam a
atuação deles”, conta Joaquim.
Em seguida, os que nĂŁo agiram bem tĂȘm a oportunidade de explicar seus
pontos de vista. “Eles notam os exageros que cometeram ao ouvir os
demais.” Segue, entĂŁo, o momento das reparaçÔes, em que as partes se
desculpam, sem que ninguém seja exposto a humilhação. E estabelecem-se
acordos para evitar a repetição do problema.
Graças a esse modelo, Joaquim não precisa
lidar mais com ataques. “NĂŁo Ă© um mar de rosas. Ăs vezes os meninos
chegam de cabeça quente porque a situação do entorno Ă© difĂcil”, diz. A
Jocie fica na regiĂŁo do bairro Bom Jardim, o mais truculento de
Fortaleza – a capital mais violenta do Brasil, segundo o Atlas da
ViolĂȘncia divulgado este ano pelo Instituto de Pesquisas EconĂŽmicas Aplicadas (Ipea), com taxa de 78,1 homicĂdios para cada 100 mil habitantes. “NĂŁo podemos fechar os olhos para essa realidade.
Os jovens precisam sentir que nos
preocupamos com eles e queremos ajudĂĄ-los”, afirma. AlĂ©m da mediação,
Joaquim planeja as aulas em conjunto com a turma para integrar a vida
deles ao currĂculo. Para isso, recorre Ă s tĂ©cnicas do Teatro do Oprimido, desenvolvido pelo teatrĂłlogo Augusto Boal (morto em 2009).
EpisĂłdios do cotidiano da comunidade sĂŁo interpretados. “Eles sentem as
diferentes emoçÔes envolvidas em um fato, aprendem a analisar pontos de
vista diversos, enriquecem a capacidade de sentir e de olhar para o
outro.”
A experiĂȘncia de Joaquim começou a ganhar
adeptos. Outros docentes passaram a adotar a pråtica da mediação com
apoio da direção da escola. Para quebrar o paradigma da linguagem
violenta, as salas de aulas foram batizadas com palavras que expressam
gentileza. “Temos a sala do amor, a da afetividade”, conta. “Ă um
processo lento, muitos colegas ainda resistem, mas os gestores estĂŁo
abertos Ă mudança.”
NĂŁo Ă© caso de polĂcia
Telma Vinha discorda das abordagens que tentam transferir a
responsabilidade para a esfera da Segurança PĂșblica. Solucionar a
questĂŁo, Telma insiste, Ă© papel da escola. “NĂŁo adianta instalar
cĂąmeras, detectores de metal, aumentar o policiamento”, afirma.
“Enquanto a escola nĂŁo mudar institucionalmente, nĂŁo vai funcionar bem.”
Para a especialista, as transformaçÔes na sociedade tornaram as
relaçÔes mais horizontais e diminuĂram o poder da autoridade.
A escola, porém, continua brigando por tudo: a hora de chegar, a hora de
ir ao banheiro, a cor da meia que estĂĄ diferente do uniforme. “Isso
desgasta a autoridade, e o aluno perde o respeito por tudo, inclusive
pelas regras que realmente importam”, defende Telma.
O docente, porém, não estå preparado, não recebe formação nem respaldo
para lidar com o conflito. “Ele fica preso a procedimentos antigos, como
mandar para a sala da coordenação, suspender, expulsar”, diz Telma.
"Sem preparo, o professor acaba adoecendo." Um levantamento da Secretaria Estadual de Educação de SĂŁo Paulo –
maior rede do paĂs, com 220 mil docentes – revelou que 136 mil
afastamentos em 2015 por questĂ”es de saĂșde foram concedidos – 27,8% das
licenças ocorreram por transtornos mentais, stress e depressão.
A vida Ă© comunitĂĄria
Na periferia de Belo Horizonte, a Escola Municipal de Ensino Fundamental Anne Frankenvolve seus 797 estudantes com a histĂłria e a rotina do Conjunto Confisco, onde estĂĄ instalada. “Aqui sempre foi o lugar das assembleias do bairro, dos velĂłrios, das missas”, conta a diretora Sandra Mara de Oliveira Vicente,
53 anos. “Fazemos questĂŁo de manter essa ligação porque ela Ă©
fundamental para o sucesso da escola.” Sandra, que chegou Ă Anne Frank
hĂĄ 26 anos, Ă© uma educadora ativa.
Circula
o tempo todo, prova a merenda, checa o estado dos equipamentos,
conversa com a equipe, ouve o que os estudantes tĂȘm a dizer. “Temos
conflitos, eles são parte da educação. O professor faz a mediação para
construir, com toda a turma, uma solução.” A unidade lida com crianças
em situação de risco. Algumas estão envolvidas com o crime, outras são
vĂtimas de abuso.
"Tentamos
acolher os alunos e suas famĂlias porque a escola precisa fazer
diferença na vida deles, ser o lugar onde aprendem e se sentem seguros."
Para fortalecer seu papel na comunidade, a Anne Frank participa de uma
rede de representantes do poder pĂșblico no bairro, que reĂșne o batalhĂŁo
da PolĂcia Militar, a Defensoria PĂșblica, o Centro de SaĂșde Municipal e o Centro Cultural. “Em reuniĂ”es mensais, propomos atividades culturais e soluçÔes para problemas do territĂłrio”, explica Sandra.
Em sala de aula, projetos integram a realidade dos jovens aos conteĂșdos acadĂȘmicos. Um deles, conduzido em 2016 por Moacir Fagundes Freitas, que leciona histĂłria, recebeu o PrĂȘmio Nacional de Educação em Direitos Humanos, concedido pelo MinistĂ©rio da Educação e pela Organização de Estados Ibero-Americanos. Intitulado Entre o DiĂĄrio e a HQ: Estudantes Construindo a HistĂłria de um Bairro,
o projeto levou o 7Âș ano a pesquisar as origens do Confisco e a
recontĂĄ-las no formato de histĂłria em quadrinhos. “Alguns jovens tinham
vergonha de morar aqui”, conta Freitas.
"Iniciamos o projeto com a leitura de O DiĂĄrio de Anne Frank,
porque a gente trabalha com o ideĂĄrio dela, que Ă© a luta contra a
violĂȘncia, o preconceito, a discriminação. O nosso bairro nĂŁo deixa de
ser uma espécie de gueto", explica.
Os alunos fizeram uma pesquisa de opiniĂŁo entre moradores para saber o
que eles pensavam sobre o lugar. Também identificaram dez mulheres que
haviam participado da fundação do bairro e as entrevistaram. “A
percepção deles foi se modificando”, relata o professor. “Quando
procurĂĄvamos notĂcias que os jornais publicam sobre o Confisco, eles jĂĄ
estavam se indignando com a forma como o bairro deles era retratado na
mĂdia.”
Na hora de construir a histĂłria em
quadrinhos, Freitas conseguiu o apoio de dois quadrinhistas, que deram
oficinas de desenho. Além do gibi, a turma fotografou o bairro. Das 700
imagens registradas, o professor escolheu 50 e montou a exposição
Confisco pelo Confisco. A mostra ganhou um edital da Universidade Federal de Minas Gerais e foi exibida ao pĂșblico no Circuito Cultural Praça da Liberdade, um dos pontos turĂsticos mais nobres de Belo Horizonte.
“NĂŁo vou esquecer a alegria dos
estudantes ao ver seus nomes no painel”, relata o mestre. Anne Frank
estĂĄ livre de agressĂ”es? “Claro que nĂŁo. Outro dia, um menino agrediu
uma colega de sala e eu tive de mediar o conflito”, recorda o professor.
“Educação Ă© um processo contĂnuo, nĂŁo acaba nunca. Os desafios vĂŁo e
voltam. Sabemos disso e aprendemos a dialogar sempre.”



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